Negros e negras brasileiros que deveriam ser mais estudados nas escolas
: http://www.vermelho.org.br/noticia/159935-11

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A música brasileira e a censura da ditadura militar

A ditadura militar tentou vetar, ou dificultar, a livre
circulação de ideias no Brasil e a censura foi o algoz do cinema, das artes, do
jornalismo, da literatura, do teatro e qualquer outra manifestação cultural ou
científica. Nada escapava à fúria cortadora dos encarregados, pela ditadura, de
impedir o debate no país, e a música foi uma de suas vítimas mais notórias.
Por Jeocaz Lee-Meddi*
Quando o golpe militar foi deflagrado, em
1964, ironicamente o Brasil tinha na época, os movimentos de bases político-sociais
mais organizados da sua história. Sindicatos, movimento estudantil, movimentos
de trabalhadores do campo, movimentos de base dos militares de esquerda dentro
das forças armadas, todos estavam engajados e articulados em entidades como a
UNE (União Nacional dos Estudantes), o CGT (Comando Geral dos Trabalhadores), o
PUA (Pacto da Unidade e Ação), etc., que tinham grande representatividade
diante dos destinos políticos da nação.
Com a implantação da ditadura, todas essas entidades foram asfixiadas, sendo
extintas ou a cair na clandestinidade. Em 1968, os estudantes continuavam a ser
os maiores inimigos do regime militar. Reprimidos em suas entidades, passaram a
ter voz através da música. A Música Popular Brasileira começa a atingir as
grandes massas, ousando a falar o que não era permitido à nação. Diante da
força dos festivais da MPB, no final da década de sessenta, o regime militar
vê-se ameaçado. Movimentos como a Tropicália, com a sua irreverência mais de
teor social-cultural do que político-engajado, passou a incomodar os militares.
A censura passou a ser a melhor forma da ditadura combater as músicas de
protesto e de cunho que pudesse extrapolar a moral da sociedade dominante e
amiga do regime. Com a promulgação do AI-5, em 1968, esta censura à arte
institucionalizou-se. A MPB sofreu amputações de versos em várias das suas
canções, quando não eram totalmente censuradas.
Para censurar a arte e as suas vertentes, foi criada a Divisão de Censura de
Diversões Públicas (DCDP), por onde deveriam previamente, passar todas as
canções antes de executados nos meios públicos. Esta censura prévia não
obedecia a qualquer critério, os censores poderiam vetar tanto por motivos
políticos, ou de proteção à moral vigente, como por simplesmente não perceberem
o que o autor queria dizer com o conteúdo. A censura além de cerceadora, era de
uma imbecilidade jamais repetida na história cultural brasileira.
Os Perseguidos do Pré-AI-5
Antes mesmo de deflagrado o AI-5, alguns representantes incipientes da MPB já
eram vistos pelos militares como inimigos do regime, entre eles, Caetano
Veloso, Gilberto Gil, Taiguara e Geraldo Vandré.
A intervenção de Caetano Veloso era mais no sentido da contracultura do que
contra o regime militar. Os tropicalistas estavam mais próximos dos
acontecimentos do Maio de 1968 em Paris, do que das doutrinas de esquerda que
vigoravam na época, como o marxismo-leninismo soviético e o maoísmo chinês. Mas
os militares não souberam identificar esta diferença, perseguindo Caetano
Veloso e Gilberto Gil pela irreverência constrangedora que causavam. Na época
da prisão dos dois cantores, em dezembro de 1968, os militares tinham de
concreto contra eles, a acusação de que tinham desrespeitado o Hino Nacional,
cantando-o aos moldes do tropicalismo na boate Sucata, e uma ação que queria
mover um grupo de católicos fervorosos, ofendidos pela gravação do “Hino do
Senhor do Bonfim” (Petion de Vilar – João Antônio Wanderley), no álbum
“Tropicália ou Panis et Circenses” (1968). Juntou-se a isto a provocação de Caetano
Veloso na antevéspera do natal de 1968, ao cantar “Noite Feliz” no programa de
televisão “Divino Maravilhoso”, apontando uma arma na cabeça. O resultado foi a
prisão e o exílio dos dois baianos em Londres, de 1969 a 1972.
Ainda do repertório do álbum mítico “Tropicália ou Panis et Circenses” , a
música “Geléia Geral” (Gilberto Gil – Torquato Neto), sofreu o veto da censura
por ser considerada de conteúdo política contestatória, além de segundo os
censores, fazer um retrato equivocado da situação pela qual passava o país.
Ao retornar do exílio, Caetano Veloso e
Gilberto Gil sofreram com a perseguição da ditadura e da censura. Em 1973,
Caetano Veloso teve a sua canção “Deus e o Diabo”, vetada por causa do último
verso “Dos bofes do meu Brasil”. Diante do veto, a gravadora solicitou recurso,
foi sugerido pelo censor que o autor substituísse a palavra “bofes”. Mas um
segundo censor menciona os versos “o carnaval é invenção do diabo que Deus
abençoou” e “Cidade Maravilhosa/ Dos bofes do meu Brasil”, como ofensivos às
tradições religiosas. Em 1975, o álbum “Jóia” trazia na sua capa Caetano
Veloso, sua então mulher Dedé e o filho Moreno, completamente nus, com o
desenho de algumas pombas a cobrir-lhe a genitália. Censurada, o álbum foi
relançado com uma nova capa, onde restaram apenas as pombas.
Geraldo Vandré tornou-se o inimigo número um do regime militar. A sua canção
“Caminhando (Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores)”, que ficou com o polêmico
segundo lugar no Festival Internacional da Canção, em 1968, tornou-se um hino
contra a ditadura militar, cantado por toda a juventude engajada do Brasil de
1968. Esta canção, afirmam alguns analistas de história, foi uma das
responsáveis pela promulgação do AI-5. Ficou proibida de ser cantada e
executada em todo país. Só voltaria a ser ressuscitada em 1979, após a abertura
política e a anistia, quando a cantora Simone a cantou em um show, no Canecão.
Perseguido pelo regime, Geraldo Vandré esteve exilado de 1969 a 1973. Após o
exílio, jamais conseguiu recuperar a carreira interrompida pela censura da
ditadura militar. Calava-se uma expressiva carreira emprestada ao combate à
ditadura.
Taiguara, uma das mais belas vozes masculinas da MPB, interpretou com maestria
diversos gêneros musicais. Foi um dos cantores que mais se opôs contra a
repressão da ditadura militar. Sua obra pagou o preço da perseguição e da
censura. Deparou-se com a atenção da censura em 1971, que esteve atenta às
canções do álbum “Carne e Osso”. Em 1973 teve 11 músicas proibidas. Perseguido
pela censura, Taiguara teve muitas das suas músicas assinadas por Ge Chalar da
Silva, sua esposa na época. Exilado em Londres, Taiguara gravou o álbum “Let
the Children Hear the Music“, em inglês. O disco foi proibido de ser lançado,
pela EMI, por decisão da polícia federal brasileira. O compositor recorreu ao
Conselho Superior de Censura, em 1982, tendo o disco finalmente liberado.
Chico Buarque, o Alvo Predileto da Censura Militar
Tendo silenciado e asfixiado Geraldo Vandré,
os militares elegeram o seu novo inimigo do regime: Chico Buarque de Hollanda.
No período que durou a censura e o regime militar, Chico Buarque foi o
compositor e cantor mais censurado. A sua obra sofreu respingos da censura em
todas as vertentes, tanto nas canções de protesto, quanto nas que feriam os
costumes morais da época.
Os problemas de Chico Buarque com a censura começaram junto com a sua carreira.
Em 1966, a música “Tamandaré”, incluída no repertório do show “Meu Refrão”, com
Odete Lara e MPB-4, é proibida após seis meses em cartaz, por conter frases
consideradas ofensivas ao patrono da marinha. Era o começo de um longo namoro
entre a censura e a obra de Chico Buarque.
Exilado na Itália, de 1969 a 1970, Chico Buarque sofreria com a perseguição da
censura após o retorno ao Brasil. Em 1970, recém chegado do exílio, o
compositor enviou a música “Apesar de Você” para a aprovação da censura, tendo
a certeza que a música seria vetada. Inesperadamente a canção foi aprovada,
sendo gravada imediatamente em compacto, tornando-se um sucesso instantâneo. Já
se tinha vendido mais de 100 mil cópias, quando um jornal comentou que a música
referia-se ao presidente Médici. Revelado o ardil, o exército brasileiro
invadiu a fábrica da Philips, apreendendo todos os discos, destruindo-os. Na
confusão, esqueceram de destruir a matriz.
Em 1973 Chico Buarque sofreria todas as censuras possíveis. A peça “Calabar, ou
o Elogio à Traição”, escrita em parceria com Ruy Guerra, foi vetada pela
censura. As conseqüências da proibição viriam no seu álbum, “Calabar”, também
daquele ano. A capa do disco trazia a palavra “Calabar” pichada num muro. Os
censores concluíram que aquela palavra pichada tinha um significado subversivo,
o que resultou na proibição da capa. A resposta de Chico Buarque foi lançar o
álbum com uma capa totalmente branca e sem título. O disco trazia o registro
das canções da peça vetada, por isto teve várias músicas (todas elas em
parceria com Ruy Guerra) que amargaram nas malhas da censura. “Vence na Vida
Quem Diz Sim” teve a letra totalmente censurada, sendo gravada no disco uma
versão instrumental; “Ana de Amsterdam” teve vários trechos censurados. “Não
Existe Pecado ao Sul do Equador”, que fazia parte deste disco, alcançaria
grande sucesso quando gravada por Ney Matogrosso, em 1978, quando foi escolhida
como tema de abertura da novela da tevê Globo “Pecado Rasgado”, na versão
original da música o verso “Vamos fazer um pecado safado debaixo do meu
cobertor“, foi substituído por “Vamos fazer um pecado rasgado, suado, a todo
vapor“. “Fado Tropical” teve proibido parte de um texto declamado por Ruy
Guerra, além da frase “além da sífilis, é claro”, herança portuguesa, segundo a
personagem Mathias, no sangue brasileiro. “Bárbara”, um dueto entre as
personagens Ana de Amsterdam e Bárbara, teve cortada a palavra “duas”, por
sugerir um relacionamento homossexual entre elas. Tanto “Ana de Amsterdam”
quanto “Bárbara”, já tinham sofrido os mesmos cortes no álbum “Caetano e Chico
Juntos Ao Vivo”, ali substituídos por palmas. Ainda no registro do encontro de
Chico Buarque e Caetano Veloso, além da censura às duas canções citadas,
“Partido Alto” (Chico Buarque), interpretada por Caetano Veloso, sofreu
alterações na letra, sendo substituídas as palavras “brasileiro” por
“batuqueiro” e “pouca titica” por “pobre coisica”.
Diante de tantas mutilações da censura, o
álbum “Calabar”, com capa branca, de Chico Buarque, foi um fracasso de vendas.
Após o fracasso comercial , a Philips decidiu recolher o disco com capa branca,
relançando-o semanas depois, com uma nova capa, trazendo apenas com uma
fotografia do artista, de perfil, com o título “Chico Canta”.
Naquele ano de 1973, a música “Cálice” (Chico Buarque – Gilberto Gil), foi
proibida de ser gravada e cantada. Gilberto Gil desafiou a censura e cantou a
música em um show para os estudantes, na Politécnica, em homenagem ao estudante
de geologia da USP Alexandre Vanucchi Leme (o Minhoca), morto pela ditadura.
Ainda naquele ano, no evento “Phono 73”, festival promovido pela Polygram,
Chico Buarque e Gilberto Gil tiveram os microfones desligados quando iriam
cantar “Cálice”, por decisão da própria produção do show, que não quis criar
problemas com a ditadura.
Em 1974 a censura não dá tréguas ao artista. Impedido de gravar a si mesmo,
Chico Buarque lança um disco, Sinal Fechado (1974), com composições de outros
autores. Diante de tantas canções vetadas, a sofrer uma perseguição acirrada,
Chico Buarque cria os pseudônimos de Julinho da Adelaide e Leonel Paiva. É sob
o heterônimo do Julinho da Adelaide que a censura deixa passar canções de
críticas inteligentes à ditadura, lidas nas entrelinhas: “Jorge Maravilha”, que
trazia o verso “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta”, que era lida como
uma referência ao então presidente Geisel, cuja filha Amália Lucy, teria dito
em entrevista, que admirava as canções do Chico Buarque. “Acorda Amor”, outra
canção liberada do Julinho da Adelaide, era uma referência clara aos órgãos da
repressão, que vinham buscar cidadãos suspeitos de subversivos em suas casas,
levando-os em uma viatura, desaparecendo com eles. Diante da polícia
repressiva, ele chamava pelo ladrão. “Milagre Brasileiro” também levou a
assinatura de Julinho da Adelaide.
Outro clássico da MPB que sofreu uma censura moralista foi “Atrás da Porta”
(Chico Buarque – Francis Hime), o verso original “E me agarrei nos teus
cabelos, nos teus pêlos”, seria substituído por “E me agarrei nos teus cabelos,
no teu peito”, a censura achava a palavra “pêlos” de caráter indecente.
Outra canção vetada de Chico Buarque foi “Tanto Mar”, uma homenagem do artista
à Revolução dos Cravos em Portugal. Por ter sido uma revolução considerada
socialista, a canção foi proibida. Seria gravada no álbum “Chico Buarque &
Maria Bethânia Ao Vivo” (1975), numa versão instrumental. Mais tarde, em 1978,
seria liberada com uma outra letra. Curiosamente, a versão original, sem cortes
e cantada de “Tanto Mar”, consta no mesmo álbum “Chico Buarque & Maria
Bethânia Ao Vivo” lançado em Portugal.
Quando o AI-5 foi extinto, em 1978, Chico Buarque vingou-se dos anos de censura,
gravou “Cálice”, regravou “Apesar de Você”, além de criar músicas provocantes,
que afrontavam à moral da época, como “Folhetim“, que descrevia uma prostituta,
ou “Geni e o Zepelim” e “Não Sonho Mais”, temas de dois travestis, Genivaldo da
peça “A Ópera do Malandro” e Eloína, do filme “A República dos Assassinos”,
respectivamente.
1973, o Ano Negro da Censura às Músicas da MPB
Chico Buarque não teria sido o único cantor
da MPB a sofrer mutilações na sua obra naquele opressivo ano de 1973. O endurecimento
deve-se à volta das manifestações estudantis, nos últimos anos bruscamente
combalidas, resultado das perseguições aos líderes do movimento, que estavam em
sua maioria presos, exilados ou desaparecidos. Outro disco mutilado pela
censura naquele ano foi “Milagre dos Peixes”, de Milton Nascimento, lançado em
LP e compacto simples. Do álbum seriam vetadas as canções: “Hoje é Dia d’El
Rey” (Márcio Borges – Milton Nascimento), “Os Escravos de Jó” (Milton
Nascimento – Fernando Brant) e “Cadê” (Milton Nascimento – Ruy Guerra). Uma das
faixas proibidas teria a participação de Dorival Caymmi, com a sua exclusão,
não aconteceu esta participação. “Diálogo Entre Pai e Filho” teve uma única
frase que não foi proibida: “Meu filho”. Diante da censura, Milton Nascimento
gravou apenas as melodias das canções vetadas.
Foi no tumultuado ano de 1973, que a banda Secos & Molhados explodiu,
conquistando o país inteiro. O público dos Secos & Molhados, devido à
proposta inovadora e ao seu carisma, era composto por todas as idades,
inclusive por crianças e por adolescentes. Os três integrantes da banda eram
Ney Matogrosso, Gerson Conrad e João Ricardo, que se apresentavam com os
rostos pintados. Ney Matogrosso além de
trazer a cara pintada, tinha uma voz de timbre totalmente diferente da de um
homem cantor, um aspecto andrógeno e apresentava-se entre plumas, sem camisa.
Os pelos do peito do cantor e os seus frenéticos rebolados, incomodaram à
censura, à moral e aos seus bons costumes vigentes, que proibiu que as câmeras
da televisão focassem o cantor de perto, sendo permitido apenas aparecer o
rosto em close. Assim apareceriam os Secos & Molhados em um clipe do recém
estreado “Fantástico”, programa da Rede Globo.
Além da capa de “Calabar”, também em 1973, Gal Costa teve censurada a capa do
disco “Índia”, por trazer um close frontal da cantora vestida de uma tanga
minúscula, e na contracapa fotografias da mesma de seios nus, vestida de índia.
A gravadora Philips comercializou o álbum coberto por um envelope opaco, de
plástico azul. Do mesmo álbum, a música “Presente Cotidiano”, de Luiz Melodia,
foi proibida de tocar em rádios e locais públicos. Em 1984, já no fim da
ditadura, pós Diretas Já, Gal Costa teria outra canção proibida pela censura de
ser tocada em público: “Vaca Profana” (Caetano Veloso), do álbum “Profana”.
Ainda naquele tenso 1973, uma reportagem da revista Veja, dava conhecimento de
que o álbum de Gonzaguinha, “Luiz Gonzaga JR.” (1973), era resultado do corte
feito pela censura de 15 músicas.
Ainda em 1973, Raul Seixas teria 18 composições vetadas pela censura. Luiz
Melodia, além de ter “Presente Cotidiano” proibida de ser executada nas rádios,
teve várias palavras excluídas ou alteradas das canções do seu disco de
estréia, e várias músicas vetadas na íntegra.
Linguagem Poética e Coloquial Sofrem Censuras
Na ignorância cega da censura, sem uma lógica
que a sustentasse, até o poeta Mário de Andrade foi vetado. O fato inusitado
aconteceu em 1970, quando a gravadora Festa decidiu homenagear os 25 anos da
morte do poeta, preparando um disco com alguns dos seus mais conhecidos poemas.
Após ser submetido à censura, o projeto teve seis poemas proibidos, entre eles
“Ode ao Burguês” e “Lira Paulistana”. Os vetos foram justificados pelos
censores como estéticos, “falta de gosto”. O que se concluía era que, os
censores jamais tinham ouvido falar em Mário de Andrade, confundindo-o com um
autor vulgar do Brasil da época.
Outro exemplo eloqüente da ignorância e do despreparo dos censores, foi com o
compositor e cantor Adoniran Barbosa. Conhecido como o mais paulistano dos
compositores, Adoniran Barbosa usava em suas canções o jeito coloquial de falar
dos paulistanos. Não querendo problemas com a censura, em 1973 o artista
decidiu lançar um álbum com várias canções já gravadas na década de cinqüenta.
Inesperadamente, cinco das suas canções foram vetadas, mesmo não sendo
inéditas. Diante da linguagem coloquial de “Samba do Arnesto” (Adoniran Barbosa
– Alocin), que trazia nos seus versos “O Arnesto nos convidou prum samba/ Ele
mora no Brás/ Móis fumo/ Num encontremo ninguém/ Fiquemo cuma baita duma réiva/
Da outra veiz nóis num vai mais (Nóis num semo tatu)”, o censor só liberaria a
música se ele regravasse cantando assim: “Ficamos com um baita de uma raiva/ Em
outra vez nós não vamos mais (Nós não somos tatus)”. Na letra da música “Tiro
ao Álvaro” (Adoniran Barbosa – Oswaldo Moles), a censora faz um círculo nas
palavras “tauba”, “revorve” e “artormove”, concluindo que a “falta de gosto
impede a liberação da letra”. Para que pudessem ser aprovadas, “Samba do
Arnesto” e “Tiro ao Álvaro”, teriam que virar “Samba do Ernesto” e “Tiro ao
Alvo”. Tiveram o mesmo destino “Já Fui uma Brasa” (Adoniran Barbosa – Marcos
César), “Eu também um dia fui uma brasa. E acendi muita lenha no fogão” e “O Casamento
do Moacir” (Adoniran Barbosa – Oswaldo Moles), “A turma da favela
convidaram-nos para irmos assistir o casamento da Gabriela com o Moacir“. “O
Casamento do Moacir” foi considerada de “péssimo gosto” pela censora Eugênia
Costa Rodrigues. Diante da censura, Adoniran Barbosa não mudou a sua obra,
deixou para gravar as músicas mais tarde, quando a burrice já tivesse passado.
Outro poeta que teve problemas com a censura foi Vinícius de Moraes. Sua música
“Paiol de Pólvora” (Vinícius de Moraes – Toquinho), feita para a trilha sonora
de “O Bem-Amado”, foi proibida de ser o tema de abertura da novela, em 1973,
por causa do verso “estamos sentados em um paiol de pólvora”, sendo substituída
na abertura pela música “O Bem Amado” (Vinícius de Moraes – Toquinho),
interpretada pelo coral da Orquestra Som Livre. Também a belíssima canção
“Valsa do Bordel” (Vinícius de Moraes – Toquinho), sobre a vida de uma velha
prostituta, esteve proibida por dez anos. Vinícius cantava esta música em
shows, ironicamente chamando-a de “A Valsa da Pura”, por causa da censura.
Paulinho da Viola, em 1971, teve no seu álbum “Paulinho da Viola”, duas canções
proibidas: “Chico Brito” (Wilson Batista – Afonso Teixeira), música composta em
1949, e “Um Barato, Meu Sapato” (Paulinho da Viola – Milton Nascimento), ambas
vetadas sob a alegação de que evidenciavam o clima marginal do samba.
Outros Tantos Vetos
Vale registrar, ainda, que em 1972, Jards Macalé teria que reescrever sete
vezes a letra de “Revendo Amigos” (Jards Macalé – Waly Sailormoon), do álbum
“Movimento dos Barcos”.
Sérgio Bittencourt, jornalista e compositor, filho de Jacob do Bandolim, em 1970,
teve a sua música “Acorda, Alice”, proibida pela censura da ditadura militar
por causa do verso “Acorda, Alice/ Que o país das maravilhas acabou”. Esta
canção seria gravada por Waleska já na época da abertura política.
Rita Lee teve as músicas “Moleque Sacana”
(Rita Lee e Mu) e “Gente Fina” (Rita Lee) censuradas, a primeira por causa da
palavra sacana, considerada obscena, a segunda porque poderia ferir os bons
costumes da época.
Carlos Lyra sentiu o gosto da censura com a sua música “Herói do Medo”, proibida
por causa dos versos “odeio a mãe por ter parido” e “o passatempo estéril dos
covardes“. Carlos Lyra não alterou o conteúdo da letra, preferiu sair do país.
Belchior, que durante muito tempo foi considerado autor marginal, teve a música
“Os Doze Pares de França” (Belchior – Toquinho) censurada, porque para os
censores, os autores vangloriavam a França, fazendo dele um país melhor para se
viver do que o Brasil. Também a canção “Pequeno Mapa do Tempo” (Belchior), de
1977, uma crítica implícita ao regime, por causa dos versos “eu tenho medo e
medo está por fora” e “eu tenho medo em que chegue a hora, em que eu precise
entrar no avião“, uma alusão ao exílio, os censores concluíram que a música
trazia mensagem de protesto político.
Ao contrário do que se pensa, o cantor e compositor Luiz Ayrão foi um dos
artistas brasileiros que mais contestou a ditadura militar. A sua música “Quem
Eu Devo é Que Deve Morrer”, tem como tema uma dívida pessoal que só será paga
se Deus quiser. Também a dívida externa brasileira encontrava-se nessas
condições. Luiz Ayrão faz um samba provocativo. Diante da afirmação do verso
“quem eu devo é que deve morrer“, a canção é vetada, sendo a proibição
justificada pela censura porque a letra era um incentivo ao homicídio, com uma mensagem
de caráter negativo.
Sueli Costa deu a canção “Cordilheira” (Sueli Costa – Paulo César Pinheiro)
para Erasmo Carlos gravar. Feito o registro, a canção jamais saiu, sendo
proibida. Os autores chegaram a ir a Brasília em busca de uma explicação para o
veto. Encontram o silêncio dos censores, sem nenhuma justificativa. Mas os
versos falavam por si: “Eu quero ver a procissão dos suicidas, caminhando para
a morte pelo bem de nossas vidas”. “Cordilheira” é uma das mais belas canções
de teor contestatório já feita no Brasil. Quando liberada, seria gravada por
Simone, em 1979, no álbum “Pedaços”. O registro de Erasmo Carlos só saiu em uma
caixa de cds comemorativos à carreira do cantor. Outra canção censurada de
Sueli Costa foi “Altos e Baixos” (Sueli Costa – Aldir Blanc), que cantava de
forma densa uma cena de agressão entre um casal, que trazia um casamento
desgastado. A música falava de uísque, Dietil, Diempax, e foi justamente por
ter citado o nome do ansiolítico Diempax, que a canção foi censurada. Elis
Regina conseguiria a liberação da música, gravando-a no seu álbum “Essa Mulher”
(1979).
O Brega ou Popularesco, Nada Escapa à Censura
Como já se pôde observar , a censura da
ditadura militar não obedecia a nenhum critério. Qualquer ameaça não só ao regime
por ela imposto ao país, como à sociedade conservadora que a ajudou a ascender
ao poder e nele continuar por mais de duas décadas. Vestido de uma moral
hipócrita, o regime militar barrava qualquer obra que suspeitasse ofender à
moral, ou que se mostrasse obscena a essa moral. Em um mesmo contesto, tanto
Chico Buarque, quanto Odair José, um cantor e compositor de sucessos
popularescos, sem vínculos com qualquer militância política, ou mesmo o genial
e popular Genival Lacerda, sofriam os reveses da censura. “Tanto Mar” (Chico
Buarque), “Pare de Tomar a Pílula” (Odair José) e “Severina Xique Xique”,
apesar de canções antagônicas, de vertentes diversas dentro da música
brasileira, oscilando entre a canção política e a considerada “brega” ou
“pimba”, eram consideradas pela censura um perigo latente ao regime e à moral
que se construía naquela época. Em 1975, já Genival Lacerda tinha transformado
a sua música “Severina Xique Xique” (Genival Lacerda – João Gonçalves) em um
grande sucesso de público no nordeste brasileiro, quando foi vítima do
preconceito das famílias do Ceará, que acusavam a palavra “boutique” de ter
duplo sentido, ofendendo os bons costumes do lugar. Diante do protesto, o
departamento regional da polícia federal do Ceará encaminhou a letra à Divisão
de Censura de Brasília. Surpreendentemente, o técnico de censura de Brasília,
mantém a liberação da música e afirma que a canção “é um veículo de integração
da nacionalidade“. Este fato prova que a censura não vinha só do regime
militar, mas da sociedade que apoiava este regime, e que muitas vezes, era mais
repressiva e conservadora do que ele.
Dentro do popularesco da canção brasileira, Odair José foi um dos compositores
que mais sofreu com a censura. “O Motel” (Odair José), teve só pelo seu título,
o veto da censura. Revelar a intimidade de um casal naqueles preconceituosos
anos setenta era inconcebível para a censura militar. Outra música de Odair
José vetada pela censura foi “A Primeira Noite”, considerada inconveniente para
ser consumida pelo público jovem e adolescente da época. O autor mudou o título
da canção para “Noite de Desejos”, conseguindo liberá-la e gravá-la. A mais
polêmica música de Odair José foi “Pare de Tomar a Pílula”, onde ele pedia para
a namorada deixar de usar anticoncepcionais para que pudesse engravidá-la.
Vista à ótica do tempo, a canção chega a ser ingênua, de uma simplicidade quase
grotesca, absolutamente inofensiva para um público atual, mas aviltante para as
velhas senhoras que em 1964, saíram às ruas de rosários nas mãos, saudando, em
nome da família brasileira, os golpistas militares.
Dentro da corrente popularesca, a censura não poupou nem mesmo a dupla Dom e
Ravel, que em 1970, tornara-se a menina dos olhos da repressão, com uma música
que exaltava a nação, tornando-se o hino da ditadura: “Eu Te Amo, Meu Brasil”.
O motivo que levou o regime a interrogar Dom e Ravel, foi quando eles
apresentaram, em 1972, a canção “A Árvore”, os censores desconfiaram do trecho
“venha, vamos penetrar”. Além de imaginar que o tema que falava de árvores,
seria supostamente sobre a canabilis (planta da maconha). A música foi
proibida, apesar de ter uma gravação da banda Os Incríveis, nunca foi lançada.
A esta altura, a incoerência da censura já dava passagem para uma certa
esquizofrenia social e política, sem ideologia ou razão.
Dentro de um processo repressivo, todos os argumentos tornam-se incoerentes, a
razão é substituída pela força bruta. A censura não constrói uma lógica, muitas
vezes ela percorre movida pelas decisões pessoais dos censores. Para manter as
necessidades de uma ditadura, a censura fazia parte da arma de propaganda do
estado repressivo, podava a liberdade de expressão, principalmente as que
feriam os princípios que justificam um governo ilegítimo, emanado da força, da
opressão e da traição aos princípios da democracia.
* Jeocaz Lee-Meddi é escritor, nascido em Goiás e criado em Santos e na Bahía,
viveu anos em Lisboa e Roma. Militante da política, cultura e de gente, teve
seu romance “Fatal – A Hora Azul” premiado pela Fundação Jaime Câmara
SOBRE A MÚSICA E A CENSURA DA
DITADURA MILITAR RESPONDA:
1]O QUE SIGNIFICA:UNE:/CGT:/PUA:/MPB:/DCDP:
2] Como os estudantes
passaram a ter vez? Explique
3] Por que os militares
usavam a censura?
4]Quais foram os cantores
perseguidos antes mesmo do AI-5?
5] Quem era inimigo número um do regime militar? E por quê?
6]Quem foi o compositor e cantor mais censurado? E por quê?
7]Quem foi
Julinho de Adelaide?
8] Qual foi a
justificativa da censura para os poemas de Mario de Andrade e o que se pode
concluir com esse fato?
9] Quais foram
os cantores bregas que também sofrera com a ditadura?Exemplifique.


DITADURA MILITAR NO BRASIL:
https://pt.slideshare.net/wladmircoelho/a-ditadura-militar
VÍDEO: ''O Dia que durou 21 anos''- Episódio 1
Questões para analisar este episódio do documentário:
1.
Logo no começo
surge a frase: "Aqueles que não amam a revolução, pelo menos devem temê-la".
Você sabe de que "revolução" se fala? Interprete a afirmação.
2.
Quais as razões
para os Estados Unidos interferirem na política interna do Brasil, no contexto
de começo dos anos 60?
3.
Quem era Lincoln
Gordon? Qual o papel desempenhado por esta pessoa na instauração da ditadura
brasileira?
4.
Como a reforma
agrária, colocada em curso por João Goulart, foi apresentada ao presidente dos
EUA, por Lincoln Gordon?
5.
Como Leonel
Brizola, governador do Rio Grande do Sul, e especialmente o presidente João
Goulart passaram a ser vistos nos EUA devido às interpretações do embaixador
norte-americano sobre o Brasil?
6.
De que maneira os
EUA articularam fatos da política interna brasileira ao exemplo cubano, para
justificar uma intervenção em nosso país?
7.
O que
caracterizava a "Aliança para o progresso", empreendida pelos Estados
Unidos?
8.
De forma o governo
norte-americano passou a articular-se aos opositores de João Goulart, para
derrubá-lo do poder?
9.
Quais as reais
intenções do IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais)? Que tipo de
conteúdo o instituto produzia e propagava?
10.
Quais as reais
intenções do IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática)? Quais as suas
principais ações?
11.
Qual a relação de
ambos os institutos com o Golpe Militar no Brasil?
Confira o slide da 2ª Guerra Mundial:
https://www.slideshare.net/shoujofan/a-2-guerra-mundial-1939-17333251?qid=343d9e77-1e77-4c18-8f5a-07ced93c7013&v=&b=&from_search=4
Análise da Constituição de 1934
Clicar no link que traz a Constituição de 1934
transcrita na íntegra: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao34.htm
Realizar a leitura de parte do documento, especificamente
dos dois capítulos:
TÍTULO III - Da Declaração de Direitos:
-Capítulo I - Dos Direitos Políticos
-Capítulo II - Dos Direitos e das Garantias Individuais
A]Analisar os dois capítulos do Título III, buscando
responder questões tais como:
1]Quais as pessoas são consideradas cidadãos brasileiros na
Constituição de 1934?
2]Quais as pessoas são consideradas eleitoras, isto é,
habilitadas ao exercício do voto?
3]E quais estão inabilitadas a votar?
B]Analise os itens 1 e 2 do Art. 113.
4]Localize o item que reza sobre a questão religiosa.
5]Após ler os 38 itens do Capítulo II, selecione 5 que você
considera mais importantes e justifique.
9 comentários:
Obrigado prof Wilson.
9ºB ESC PRESIDENTE VARGAS!
CHRYSTIAN DUARTE.
legal
Pesado
Qual foi a providência tomada pelos governos dos paises envolvidos no conflito mundial?
Salve
Bom dia
É o crime , é nois
esse conteudo é do Presidente Vargas??? o Sr. Vai postar da Abigail?
Esse blog é uma bosta não serve pra nada eu sou a Júlia do 9 ano do Abigail borralho
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