quarta-feira, 27 de agosto de 2014

O caminho em direção à igualdade

“O caminho em direção à igualdade (...) A história da humanidade tem sido, não só mas em grande parte, a história da dominação que uns impõem aos outros. Livrando-se dos trabalhos mais pesados, necessários à reprodução material, alguns homens conseguiram se dedicar ao aperfeiçoamento do conhecimento, à criação de obras artísticas e à pesquisa científica, permitindo avanços tecnológicos que se multiplicaram de forma acelerada. Entretanto, ao lado das imensas conquistas do homem contemporâneo, as desigualdades entre ricos e pobres têm aumentado de forma assustadora, fazendo que alguns tenham acesso a tudo o que o mundo moderno oferece e outros não consigam satisfazer nem sequer suas necessidades básicas, como a alimentação. (...) Podemos (...) superar alguns de nossos problemas fundamentais, que ajudam a perpetuar as desigualdades entre nós, como o preconceito contra o negro e o mestiço. Como vimos, estes se ligam diretamente ao nosso passado, no qual os africanos eram considerados seres inferiores (...). Depois do fim da escravidão as elites brasileiras buscaram eliminar nossos laços com as culturas africanas e os sinais da presença dos afro-descendentes entre nós, sonhando com o branqueamento da população. (...) O branqueamento, porém, não aconteceu. Como todos sabemos, os brasileiros, mesmo quando não negros ou mestiços, são bastante morenos se tomarmos os europeus e norte-americanos brancos como referência. Apesar da miscigenação que tornou até mesmo a elite mais morena, a maioria dos negros e mestiços foi mantida nos segmentos mais desfavorecidos da população, não só pela precariedade das oportunidades oferecidas para a sua educação e aprimoramento profissional como também pela preferência de pessoas de pele mais clara para ocupar os melhores cargos no mercado de trabalho. Essa discriminação, baseada não só em fatores econômicos mas também de aparência física, persiste ainda hoje, mesmo com as mudanças de pensamento, sensibilidade e comportamento ocorridas a partir dos anos 1960. De lá para cá, entretanto, muita coisa mudou. No que diz respeito às maneiras como os homens entendem o seu mundo, a noção de raça cedeu lugar à noção de cultura, assim como a ideia de que a humanidade percorreria um caminho único que ia de um estágio menos desenvolvido para um mais desenvolvido foi substituída pela idéia de que os povos devem ser entendidos em suas especificidades, a partir de suas culturas, e não como elos de uma mesma cadeia de desenvolvimento. Assim, foi possível questionar se o padrão da civilização ocidental, criado pelo mundo europeu, era o melhor, devendo ser seguido por todos. No que diz respeito à África, especificamente, o desenvolvimento de estudos sobre as suas sociedades, do presente e do passado, mostrou a sua complexidade, no caso dos grandes reinos e impérios, e a sua eficácia, no caso das sociedades descentralizadas, organizadas a partir das aldeias, com formas de estruturação mais comunitárias. Todas essas mudanças na maneira de ver o mundo, as sociedades e as pessoas, que não eram mais hierarquizadas a partir de suas características biológicas, fortaleceram um movimento de afirmação da negritude e de valorização das coisas africanas, do qual participaram países que no passado estiveram envolvidos com a escravidão e o tráfico de escravos – razão do transporte de mais de 10 milhões de pessoas da África para as Américas. Essa grande movimentação populacional (...) foi a maior que a humanidade já viu e está na base da formação das sociedades americanas. Tomando consciência disso, e conhecendo melhor a história e as sociedades africanas, os afro-brasileiros passaram, pouco a pouco, a valorizar os seus traços distintivos, suas culturas ancestrais, sua contribuição à formação da sociedade brasileira, mudando sua posição de uma vontade de se tornar igual ao branco para uma valorização de suas tradições, estéticas, sensibilidades e aparências. O sentimento de inferioridade criado pela situação anterior deu lugar ao orgulho de ser negro, que será um dos pilares da construção de um novo lugar do afro-brasileiro no conjunto da sociedade. Isso, porém, não é suficiente. Relações sociais construídas ao longo de mais de trezentos anos não são alteradas de uma hora para outra. Preconceitos profundamente arraigados não são derrubados só com doses de boa vontade. (...) Para ajudar nas transformações, além de mudanças de comportamento e sensibilidade, são fundamentais as alterações na legislação que ordena a sociedade e as relações entre os homens. E isto também vem acontecendo, principalmente a partir dos anos 1990, quando as discussões relativas à reserva de vagas nas empresas e universidades para afro-descendentes começaram a virar realidade na forma de leis. Mesmo com sua implementação dificultada por uma série de variáveis e incertezas acerca da pertinência ou não de tais medidas legais, aos poucos as coisas vão mudando, inclusive no plano das sensibilidades. As ações afirmativas, como são chamadas essas reservas de vagas em empresas e universidades, certamente têm vários problemas, sendo um dos principais o estabelecimento de critérios de quem estará apto a pleiteá-los numa sociedade basicamente mestiça, portanto com os limites entre o branco e negro extremamente difíceis de serem estabelecidos. Além disso, é evidente que com essa medida não se enfrenta o problema da deficiência da educação fundamental nas escolas públicas, onde estudam as parcelas mais pobres da população, que também são as mais negras e mestiças. Com pior formação escolar, esses estudantes não conseguem competir em pé de igualdade pelas vagas nas universidades públicas com aqueles formados em escolas particulares. Mas apesar dos problemas, de algum lugar temos de partir, e a garantia de acesso a posições às quais os afro-brasileiros estiveram sistematicamente excluídos é um começo na conquista de condições mais igualitárias para o desenvolvimento de todas as pessoas, independentemente das origens étnicas ou sociais. (...) Ao mudarmos a maneira como nos aproximamos desses temas e percebermos a importância dos africanos e afro-descendentes para a nossa formação, assim como o valor das sociedades africanas, que têm muito a contribuir para a história da humanidade como um todo (...) teremos mais orgulho do que somos: povo mestiço, no qual a convivência dos diferentes criou a originalidade que nos caracteriza. (...) No mundo contemporâneo, cada vez mais mestiço, o Brasil poderá ser um exemplo a ser seguido, dependendo de como lidarmos com a diversidade da nossa população.” Referência: SOUZA, Marina de Mello e. “O fim da escravidão e do contato com a África”. In: África e Brasil africano. 2 ed. São Paulo: Ática, 2007, p. 140-145.

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